Pesquisar

  • Endereço:

    Praça Frei Orlando, 90 - Fundos
    Centro
    São João del Rei - MG
    CEP: 36307-352

  • Telefone: 32 3373 4779
  • Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
  • Facebook: facebook.com/bibliotecasjdr
Segunda 18 Dezembro 2017

Avaliação do Usuário

Estrela ativaEstrela ativaEstrela ativaEstrela ativaEstrela inativa
 

o ultimo recurso

Enquanto não chegava a hora de ligar o rádio no programa caipira, uns escoravam no balcão, outros de cócoras, pitavam seu palheiro, de vez em quando alguém entrava querendo sal, querosene ou bicarbonato. O comprador saudava o pessoal, escutava a prosa, espichava a presença antes de pedir o que queria.

A conversa, quase sempre mais silêncio que assunto, era entremeada com "huns" e "ahns", olhares e abanos de cabeça.

Já tinham falado do tempo, da plantação, da falta de dinheiro e da vida alheia. Chegando o Hilarino, a prosa desguiou pra pescaria. Ele contou que contou vantagem, papeata de não acabar mais. Todo mundo achou graça, mas o assunto caiu naquele ponto que depois morre. Nisso entra o Necésio, filho mais velho do Tião Gomide, outro que dava a vida por uma pescaria.

Então alguém pergunta:

- E ontem, Necésio, comé que foi? Pegaram quantas?

- Voltamo sapateiro.

- Não pode!? Ondé que ocês foram?

- Na lagoa Grande.

- E não pegaram nada? Diz-que lá anda danado de bom!

- É. Mas ainda botei as mão pro céu de chegar vivo aqui.

O rapaz foi contando, dum jeitão esparramado, muita gesticulação, parecia que a gente via o que ele ia falando:

- Eu mais o pai tava descendo pra lagoa, o tempo prometia, aquela esperança de trazer muita traíra. Sabe ali no ipê amarelo? Pois é. Eu ia na frente distraído, meu pai atrás. De repente, quando chegou perto do ipê, ele deu aquele grito: - "Cuidado, menino! Olha a Fumaça!" A vaca tinha acabado de parir, quase pisei no bezerro, assim dum lado do trilho, ainda tava molhado. A mãe andava em roda, bufava, berrava, vinha e voltava, não sabia se espaventava a gente ou se tomava conta da cria. Quando parecia que ia sossegando, deu uma corrida no nosso rumo. Eu, mais que depressa, subi numa árvore.

- E seu pai?

- O pai, coitado, mal deu conta de entrar numa moita fechada, perto da árvore que eu tinha subido.

- Aquela moita de esporão?

- Ela mesmo. Quando dei fé, olha o pobre do pai enfiado lá dentro, nem sei como conseguiu.

- É o aperto uai. É o que faz o sapo pular.

- Aí eu fiquei espiando a vaca, trepado numa forquilha lá no alto. Ela olhava pra cima, tirava uma linhada na moita, lambia o bezerro, parece que amansava. Pastava ali em roda, até que sossegou.

- E o Tião?

- Continuava lá na moita. Eu via o sol baixando, pensava na trairama na flor d'água, era só jogar o anzol, e a gente ali, feito bobo. Então resolvi experimentá descer da árvore.

- A vaca te pegou?

- Fez que ia caminhar pro meu lado, ficou me olhando, me estudando. Fingi de duro, peguei um porretinho, ela acabou desistindo. Chamei o pai, ele falou que não dava pra sair, arranhava no esporão. Pedi pra ele ao menos tentar. Escutei barulho na moita, logo ele começou esbravejar. Saía tudo quanto era palavrão, ficou mais lanhado ainda, não adiantava teimar. Um tempo bom daquele, não tinha cabimento a gente desperdiçar a tarde toda assim.

- E aí?

- Dei mais um prazo, tornei a insistir. Falei que não era possível passar o resto da vida dentro de uma moita de espinho. De tanta raiva, ele falou que se fosse preciso passava. Lembrei que, se tinha entrado, havia de sair.

E ele?

- Respondeu que só entrou porque atrás dele vinha uma vaca desatinada de brava, pra salvar a pele não teve outro remédio. Eu esperei, esperei, já ia desacorçoando, não via saída pra situação. De repente, lembrei do pai entrando no espinheiro, coitado, aquele medão da vaca. Aí me veio a idéia. Como não tinha outro recurso, o jeito foi botar a tal idéia em prática, quê qu'eu havia de fazer?

- E o que foi que ocê fez?

- Taquei fogo na moita, uai!

Autor: Olavo Romano

Do livro "MINAS E SEUS CASOS" de Olavo Romano. Página 10.

Download Free Designs http://bigtheme.net/ Free Websites Templates

Seção: "Você Escritor!"

Amor

"Amor". Arte escolhida pelo autor.

"Amor uma mulher
cuja distância transforma em sonho,
dando sentido às madrugadas...

Amo uma mulher
do tamanho de meus olhos,
tão infinita quanto o universo...

Amo uma mulher
cujo coração e afluentes
sangram todos os dias...

Leia mais...

O meu "eu" me pertence?

O meu "eu" me pertence? Arte que retirada de "www.wallcoo.net".

"O meu 'eu' faz-se das minhas significações,
esta não sendo um instrumento cômodo que uso,
transforma a minha estabilidade em mera ficção.

A linguagem é objeto do meu 'examinar' da mente e da alma;
minha significação está sujeita à deformidade.
A imperfeição da linguagem gera a 'refratação' do meu falar.

 

Leia mais...

Avança-se no retrocesso

Avança-se no retrocesso.

"Eis uma nação emergente ou insurgente?
Eis uma cultura acolhedora ou exterminadora?
A economia está em crise ou a mídia está em lapso?
Avança-se no retrocesso.


Leia mais...