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Sexta 28 Julho 2017

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o laco cor de rosa

Meu avô era um homem esquisito. Eu o amava, mas sempre tinha receio de que ele inventasse alguma e nunca sabia se ele falava sério ou se brincava. Minha mãe contava muitas histórias dele, todas fantásticas. Quando ela era criança, vivia assustada pelas coisas que ele inventava. Mas ao mesmo tempo em que assustava, meu avô sabia encantar principalmente as crianças, talvez porque tenha sido, ao longo da vida, uma criança grande que

nunca cresceu ou cresceu contra a vontade.
Dou um exemplo. Quando Dou um exemplo. Quando minha mãe tinha a idade que eu tenho hoje, 11 anos, o pai contava que era lixeiro em Copacabana (eles moravam na Tijuca). Saía todos os dias para trabalhar, só voltava à tarde, cansado, dizia que a carrocinha dele era muito pesada, havia muito lixo em Copacabana. Quando chovia, minha mãe sofria ao imaginar que o pai dela estava apanhando chuva, catando o lixo dos outros.
Um dia, ela prometeu que quando crescesse não iria deixar o pai ser lixeiro, trabalharia muito mas não deixaria o pai empurrar a carrocinha pesada pela ruas de Copacabana, debaixo de sol ou chuva. Só mais tarde, ela ficou sabendo que era mentira do pai, ele era advogado de um banco, mas chegou certa vez a mostrar uma carrocinha de lixo, pintada de azul e amarelo, e dizer que a dele era ainda maior e mais pesada. 
O que queria ele com essas histórias? Fazer minha mãe sofrer? Não, não podia ser isso, ele era carinhoso, gostava muito das duas filhas que tinha, perdia notas de cinco reais pela rua onde ia passar e fazia as meninas acharem o dinheiro. Elas achavam que tinham muita sorte, pois além de encontrarem dinheiro na rua, encontravam bombons e balas da Kopenhagen espalhadas pela casa, dentro das gavetas, em cima dos móveis e até mesmo na pasta onde levavam o material da escola. 
O meu avô dizia que era um anjo muito amigo dele, que vinha fazer esses milagres. Minha mãe perguntou-lhe por que esse anjo não arranjava um emprego melhor para ele, ou pelo menos uma carrocinha de lixo menos pesada. Ele respondeu que nunca havia pensado nisso, sempre que encontrava o anjo, falava das filhas que eram boazinhas, bem-educadas, estudiosas e gostavam muito dele. Assim, o anjo deixava dinheiro pelas ruas, balas e bombons por toda a casa, para presentear meninas tão quietinhas e comportadas. 
Não peguei meu avô nesta fase. Quando o conheci, já estava aposentado, saía pouco de casa, mesmo assim, sempre que eu o visitava, ele inventava alguma coisa de extraordinário para me distrair. Fazia mágicas com um copo cheio de água que não entornava, tinha um cigarro mágico que sumia no bolso da gente e aparecia aceso no bolso do pijama que usava – gostava de usar pijama em casa, e sempre que penso nele, vejo-o de pijama, muito limpinho e arrumado, mas com os olhos brilhando, preparando alguma coisa para nos encantar. 
Eu gostava dele, é claro, todos gostavam dele até minha mãe, ela pedia que não o levássemos muito a sério, porque ele estava sempre aprontando alguma. 
Tanto aprontou que, depois da sua aposentadoria decidiu ter uma cachorrinha com ele. Foi um escândalo na família, pois era famosa a sua birra com animais, não gostava nem de passarinho, dizia que os bichos devem ser livres e não prisioneiros de uma casa ou de uma gaiola. 
O fato é que, eu tinha oito ou nove anos, fui passar uns dias na casa dele, porque minha mãe tinha isso com meu pai fazer uma viagem comprida, levaram a minha irmã mas não puderam me levar por causa de minhas aulas. A solução foi me mudar, com minhas roupinhas e meu material escolar, para a casa dele. Chorei um pouco, também queria ir para a tal viagem, e estranhava a cachorrinha que o vovô adotara como filha e tinha todas as regalias dentro de casa. Subia nos sofás, nas camas, durante as refeições ficava ao lado do vovô, na cabeceira da mesa, e a toda hora ele dava um pedaço de carne ou de doce para Mila – era este o nome da cachorrinha. 
Eu gostava e não gostava dela. Deitava na rede que havia na varanda e ela pulava, para ficar ao meu lado. Uma tarde, eu estava fazendo um dever da escola, esqueci o caderno aberto na escrivaninha que o vovô deixava eu usar. Mila pulou, arrastou o caderno para o chão e o amassou todo. Ia bater nele mas o meu avô a protegeu, impedindo a surra que ela merecia. 
Fiquei emburrada e ele percebeu que eu estava chateada com ele e com Mila. Veio então com uma história comprida, na qual eu não quis acreditar até que... bem, vou contar tudo, inclusive para ver se me esqueço do que houve.
Meu avô disse que Mila não era uma cachorrinha comum, igual a outras. Era uma menina do meu tamanho, da minha idade, e que se chamava Matilde. 
Uma feiticeira má, muito má, a havia encantado, transformando-a em cachorra. Apesar de minha pouca idade, recusei-me a acreditar naquilo. Onde se viu, uma feiticeira má, muito má (todas as feiticeiras são más) fazer aquilo com uma menina chamada Matilde!
Mas o meu avô enrolou uma história mais comprida ainda, disse que a Matilde era uma princesa e que a feiticeira não queria que ela crescesse e um dia se transformasse em rainha, por isso a encantara como uma cachorrinha. Eu continuei não acreditando na história, afinal, estávamos no século 21, não havia mais princesas nem feiticeiras, eram coisas do tempo da Branca de Neve e da Gata Borralheira. 
Foi aí que o vovô me botou em dúvida. Disse, com a cara mais séria do mundo, que, sempre à meia-noite, o encantamento passava e Mila se tornava a menina Matilde, que era muito boazinha e gostava muito de mim. 
Olhei para Mila. Era impossível, aquilo só poderia ser mais uma das histórias fantásticas do avô. Mesmo assim, por causa da minha idade, volta e meia eu duvidava de mim e me perguntava: “E se for mesmo verdade?”
Parece que o vovô percebeu que eu balançava, entre acreditar e não acreditar na história de Matilde. Inventou provas. Naquela manhã, quando acordei, encontrei um lencinho de seda perto da minha cama. Mostrei-o ao meu avô, que logo me disse:
- Poxa! E nós passamos a noite toda procurando este lenço!
Pedi explicações e ele disse que Matilde fora me ver dormindo, gostava tanto de mim que sempre ficava um tempo ao meu lado, velando meu sono. E que fazia calor, ela viu um pouquinho de suor na minha testa, tirou o lenço para enxugar aquela gotinha e... depois não sabia onde deixara o lenço. Os dois, ele e Matilde, procuraram, procuraram e não encontraram. Quando surgiu a luz da manhã, Matilde voltou a ser Mila e o lenço não havia aparecido. Ele guardou o lenço e disse que o devolveria naquela noite mesmo. 
Foi então que tive uma ideia: perguntei ao meu avô se ele não podia me acordar à meia-noite, para que eu conhecesse a minha misteriosa amiga que era princesa e gostava tanto de mim. 
Ele na passou recibo. Disse que sim, se eu não me incomodasse, ele me acordaria para que eu visse como Matilde era uma menina boazinha e que eu devia gostar de Mila porque também ela era boazinha e gostava muito de mim. 
No dia seguinte, quando acordei, fiquei furiosa com o meu avô. Ele não me acordara. Disse-lhe que só acreditaria naquela história se visse a tal Matilde. 
Notei que ele ficou preocupado. Eu falara sério ele desconfiou que não bastava me embromar com palavras. 
Naquela noite, quando fui deitar, ainda o avisei: se ele não me acordasse à meia-noite e não me mostrasse a menina que se chamava Matilde e gostava de mim, eu nunca mais acreditaria nele, deixaria de gostar dele e ia me mudar para a casa de um tio meu, não podia continuar morando com um velho mentiroso, que inventava coisas. 
Custei a dormir, mas tinha sono fácil. Antes, fui ver Mila, que já estava enrolada no tapete do vovô, esperando que ele fosse me deitar. Olhei bem para Mila e prometi:
- Olhe aqui, sua cachorra danada! Se você é mesmo Matilde, manda meu avô me acordar que eu quero falar com você, talvez possamos ser amigas de verdade. 
O fato é que dormi e, de repente, nem precisou que me acordassem, vi a porta do quarto se abrir e uma menina muito bonita do meu tamanho, com um pequeno laço cor-de-rosa prendendo o cabelo que era louro (eu sou morena). 
Ela se aproximou devagarinho da minha cama. Primeiro, levei um susto. Não podia acreditar no que estava vendo. Mas era tão rela a menina, tão bonita, que eu não tive medo. Quando chegou mais perto eu perguntei:
- Você é que é a Matilde!
Ela respondeu:
- Não, eu não sou a Matilde. . Eu sou a Mila. E gosto muito de você.
- Meu avô disse que você é uma princesa encantada e... – insisti.
- Não acredite muito em seu avô. Ele é muito mentiroso, mas gosto muito dele e no início, eu tinha ciúmes de você. Ele também adora a netinha que tem. 
Sentei na cama e pedi:
- Por que você não fica mais tempo comigo, como menina de verdade, para brincarmos juntas, irmos juntas para a escola?
Matilde ficou séria:
- Isto eu não posso fazer. Se ficar menina para sempre, seu avô perderá Mila. E ele vai sofrer muito se eu desaparecer. Afinal, ele tem você, que é uma menina de verdade. Mas precisa de mim, porque ele sabe que eu sou só dele. Você tem pai, tem mãe, tem irmã, parentes e amigos. É de muita gente. Ele sabe que eu só tenho a ele, que sou todinha dele, que nunca o abandonarei. Ele precisa de mim, e não é para brincar nem ir para a escola. 
Achei que aquilo fazia sentido, Matilde passou a mão da minha cabeça e me deu um beijo na testa. Eu retribuí o beijo, mas estava nervosa, beijei sua cabeça e sem querer desmanchei o laço da fita cor-de-rosa que amarrava os seus cabelos. 
Estava um pouco escuro no quarto, a única luz que havia era a da sala que continuava acesa. Tive a impressão de que a menina procurava a fita que havia caído, mas ouvimos passos no corredor. Era meu avô que acordara e viera ver se tudo estava bem comigo. 
Matilde se assustou. 
- Não quero que ele me veja aqui, preciso ir embora. 
E desapareceu. 
Nisso, quando meu avô entrou, fingi que estava dormindo. Ele me ajeitou a coberta, alisou meu rosto, me deu um beijo na testa e voltou para o quarto dele.
Eu estava maravilhada, tão maravilhada que logo engatei num sono profundo. 
Quando acordei, achei que tinha tido um sonho bonito. 
Que ficou mais bonito depois que Mila entrou no meu quarto. 
Tinha no pescoço um laço de fita cor-de-rosa.

Autor: Carlos Heitor Cony

Fonte: "Col. Bichos e Outras Histórias". Editora Rocco, 2002.

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