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Sexta 28 Julho 2017

No Escurinho do Cinema

Sábado à noite. Um jovem solteiro está sozinho em casa. Morando a dois quarteirões do shopping, resolve ir ao cinema. Toma banho, põe uma roupa bonita, passa perfume e vai.

Alguns minutos depois lá está ele; solteiro, sozinho e perfumado, ouvindo as propagandas e mexendo no celular. Ele sentou-se, nem muito à frente nem muito ao fundo, bem atrás de três mulheres elegantes: 

duas entre 40 e 50 anos, outra entre 25 e 30 anos. Começam os trailers e a mulher mais nova, sentada à direita, levanta-se inquieta e diz para as duas outras duas e pra quem mais quisesse ouvir: “Ah, não! Eu vou me sentar com o moço aqui atrás! Ele não vem mesmo! Eu vou me sentar com o moço aqui atrás!”.

Ele dirige levemente o olhar para ela e vê, nada mais nada menos, que uma mulher sedenta por sexo sentar-se insatisfeita entre duas senhoras, agora a uma distância de três cadeiras à sua esquerda. Ele fica atônito pois, apesar de perceber que a oportunidade bate, esmurra, quase arromba a sua porta, também se mantêm atento à existência de uma terceira pessoa do singular: aquele ele, que se não for um namorado, é o marido da moça, possivelmente do lado de fora do cinema, fazendo sabe-se lá o quê.

Não demora muito e a moça sai da sala de cinema. Ele acompanha cada passo dela, atentamente e, apesar de lamber os beiços a cada passo dela, se mantém convicto que ela fora trazer pela orelha o parceiro desleixado.

O filme começa e ela volta. Volta sozinha, mas possivelmente o outro cara vai entrar logo, logo. A porta se abre uma, duas, três vezes para mais pessoas entrarem, e nada. Ele continua com um olho no peixe e outro na gata, mas o filme, que, julgando pelo cartaz, seria apenas mais uma água com açúcar do cinema nacional, apresenta uma qualidade inesperada por meio de uma narrativa intensa. Decide esperar por um trecho mais morno para pular para a esquerda e abordá-la. Afinal, fazendo isto ele também evita de precipitar-se quanto à chegada “do” cara... E eis que mal se completa este raciocínio e a porta se abre novamente. Um senhor calvo e parrudo caminha em direção deles, se agacha em frente dela, conversa por alguns momentos e vai embora. Era o porteiro... Dez minutos de filme, e ela agora tem uma garrafa long neck em mãos.

Ela bebe em pequenos goles, por vezes enxugando lágrimas. Com um olho ele observa aquela donzela indefesa, frágil, fragilizada e exxxtremamente necessitada de um consolo. Com o outro, acompanha um enredo envolvente permeado por incessantes aparições dos seios de Letícia Sabatela. Sente que aquele cara realmente merece um par de chifres na testa, mas resolve esperar mais um pouco, estabelecendo um prazo final: dez minutos e nem um segundo a mais!

E eis que seus olhos pingue-pongue-iam entre ela, a tela e o relógio do celular. O tempo passa, o filme mantém o ritmo e ele percebe aos poucos o quão deprimente é a situação daquela mulher abandonada no cinema entre duas senhoras, talvez sua mãe e sua sogra. Conclui que de uma forma ou de outra já era tarde para abordá-la e chamá-la para as poltronas de trás. Além do mais, seria muita falta de amor próprio sair pegando uma vadia desesperada, disposta a dar pro primeiro idiota que lhe aparecesse na frente! Ainda mais com ela tendo duas testemunhas e um namorado desconhecido a tiracolo! Caso ele seja um baixinho, gorducho com óculos fundos de garrafa tudo bem mas, vai que se trata dum negão 2x2, um traficante ou até um policial! Não! Melhor abordá-la ao final do filme, perguntar o que tinha acontecido e passar uma cantada na moça só pra levantar a moral dela, e nada mais!

Eis que o filme segue impecável. As luzes se acendem e a mulher está lá, com uma cara de tacho. As pessoas se levantam e ele esboça uma aproximação, atentando pela primeira vez aquele nariz adunco e o quadril amorfo. As duas senhoras olham para trás desconfiadas e a fila segue. As três mulheres viram à esquerda rumo à bilheteria e ao saguão. Ele vira à direita rumo às escadas.

Autor: Lucas de Sousa Teixeira

Psicólogo e Poeta
 São João del Rei-MG

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